Sônia do Nascimento, de 63 anos, moradora do Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD), vive no local há mais de cinco décadas, onde construiu vínculos, família e rotina
“O que eu gosto mesmo, hoje em dia, é andar de bicicleta aqui dentro”, diz Sônia do Nascimento, de 63 anos, moradora do Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD). A unidade da rede da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), em Redenção, atua no cuidado, acompanhamento e reabilitação de pessoas com hanseníase e com sequelas da doença.
A bicicleta acompanha Sônia desde que chegou ao CCAD. No início, pedalava com um lenço enrolado nas mãos, tentando esconder as marcas deixadas pela hanseníase, mas nem o constrangimento a impedia de seguir em movimento, hábito que guarda até hoje. A doença, antes sem cura, hoje tem uma realidade diferente: o tratamento é gratuito, efetivo e oferecido inteiramente pelo SUS.
Sônia vive no Centro há 53 anos, desde que chegou, ainda criança, em um período em que a hanseníase era enfrentada no Brasil por meio da internação compulsória. “No começo era tudo muito ruim, porque a gente não podia sair, não podia visitar a família”, relembra.
Fundado em 1928, o espaço, então conhecido como Leprosaria Canafístula, posteriormente denominada Colônia Antônio Diogo, foi criado em um contexto histórico em que o enfrentamento da hanseníase no Brasil se baseava na internação compulsória, política sanitária adotada nacionalmente diante da ausência de tratamento eficaz e do forte estigma associado à doença.
Ao longo das décadas seguintes, com a reorganização das políticas públicas de saúde e a criação da Secretaria da Saúde do Ceará, em 1961, o modelo assistencial passou por transformações, acompanhando a progressiva superação do isolamento como estratégia de controle.
O Centro de Convivência Antônio Diogo integra a história do enfrentamento da hanseníase no estado, do isolamento compulsório ao cuidado em rede
Hoje, o manejo da hanseníase no Ceará se baseia no diagnóstico precoce, no tratamento ambulatorial e na vigilância ativa dos casos, em uma lógica oposta à do isolamento do passado. Para o secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará, Antonio Silva Lima Neto (Tanta), a continuidade de um combate efetivo desse cenário passa, necessariamente, pela capacidade da rede de identificar os casos no tempo certo.
“A maioria dos casos de hanseníase é diagnosticada por avaliação clínica na Atenção Primária. É um diagnóstico simples, desde que o profissional esteja capacitado para reconhecer os sinais, e o tratamento é ofertado gratuitamente pelo SUS”, explica.
Hoje, Sônia não usa mais o lenço para esconder as deformidades das mãos, mas o hábito de pedalar permanece. Entre uma volta de bicicleta e outra, ela também gosta de subir em árvores para apanhar frutas e brincar com os netos que circulam pelo CCAD. “Aqui é um céu. As crianças ficam livres, correm, brincam. Eu gosto de andar, gosto de viver aqui”, diz, com a tranquilidade de quem transformou um espaço marcado pelo isolamento em território de convivência e liberdade.
O Centro de Convivência Antônio Diogo
O Centro de Convivência Antônio Diogo (CCAD) abriga atualmente 140 moradores. Desse total, 17 são pessoas que viveram o período da internação compulsória — modelo que deixou de ser regra em 1962 — e a maioria é formada por filhos e netos daqueles que foram institucionalizados no passado e constituíram família no próprio local.
A instituição está situada em uma área de 15,4 hectares, o equivalente a cerca de 22 campos de futebol, e é composta por 65 casas distribuídas em três ruas, além de estruturas como enfermarias, campo de futebol, lanchonete e cemitério, preservando características de quando funcionava como uma pequena cidade.
Unidade mais antiga da rede da Sesa, o CCAD funciona hoje como centro de convivência, cuidado, reabilitação e preservação da memória. Segundo o diretor-geral da instituição, Francisco de Assis Duarte Guedes, o espaço também mantém sua vocação assistencial.
“Além de ser um local de moradia e convivência, o CCAD integra a rede de saúde e oferece atendimento à população, com acompanhamento clínico e suporte contínuo, por meio da regulação”, explica.
Memória não mantém a dor viva, mas impede que ela seja esquecida
O Memorial Leprosaria Canafístula, instalado no CCAD, preserva documentos, imagens e relatos que ajudam a compreender quase um século de enfrentamento da hanseníase no Ceará, reunindo memória, história e resistência
Parte da trajetória da hanseníase no Estado está preservada no Memorial Leprosaria Canafístula, instalado no próprio centro. O equipamento cultural reúne documentos, recortes de jornais, objetos e relatos que ajudam a compreender quase um século de enfrentamento da doença no Ceará, registrando tanto o impacto da internação compulsória e da separação familiar quanto as formas de resistência, sociabilidade e produção cultural construídas ao longo do tempo.
Fonte: Governo do Estado do Ceará

